Mostrando postagens com marcador Vertebral do Pedrosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vertebral do Pedrosa. Mostrar todas as postagens

domingo, 17 de junho de 2012

Compasso

"Sushi", Tulipa Ruiz
"É isso que dá contar com o certo
Nem sempre o amor se encontra tão perto"

Rodopiou pela rua. Subiu no banco de um ponto de ônibus qualquer e dançou no meu compasso. Deu-me as mãos. Abraçou-me. Cantou Otto. Imitou os trejeitos de Otto pela rua cinza, mas iluminada por sua presença. Não viu a noite passar, mas viu o sol nascer sem foco. Nesse instante, o único brilho no seu olhar era por conta dos raios solares – eles cortaram seus sonhos. O silêncio se fez.  “Os dias passam”, escutou. Passaram. Dias, semanas e, talvez, meses. Uma alegria nasceu de dentro para fora. Que gosto é este? Que cheiro é este? Que toque é este? Não precisou ter respostas, apenas a experiência tátil. Mas os dias passam...  

terça-feira, 6 de março de 2012

Seu beijo — parte 2

“A Casa é Sua” (2009), Arnaldo Antunes

Por FELIPE PEDROSA
Dez anos se passaram e, segundo o meu calendário, o mundo se rarefez naquele dia. Um sábado quente do mês de março. As aulas haviam começado e nós, ainda muito jovens, corríamos atrás de uma profissão, de um diploma, de um conhecimento vago que fosse. Você formou? Em qual universidade? Qual a sua graduação? Faço-me de tolo só para ter as suas respostas. Elas já não são novidades para mim.

"João, por favor, traz mais uma". Essa é a quinta ou sexta cerveja que tomo em menos de uma hora. Enquanto isso, o cigarro queima no canto da minha boca. Costuro, em guardanapos sujos e vagabundos, cada momento do nosso conúbio. Por um instante, reflito nos dias que não passamos juntos. Bar do João   não havia uma birosca com um nome mais poético para minhas linhas melosas e pregressas?!

Ainda guardo as fotografias que tiramos juntos. Aquela Polaroid era uma deusa. Mas conto sobre ela em uma outra hora. O seu beijo veio à baila. A suavidade, temperatura e sabor são únicos. A melodia dele, porém, não deve ser mais a mesma do meu. Foram outros tempos. Não sou mais a mesma pessoa nem você é. Os seus lábios, agora, são entregues ao Luiz, Lucas, Felipe, Thiago... e, para mim, restou apenas uma espessa lembrança dos seus cachos, mechas lisas, pele morena, branca, rosada, olhos cor de mel, castanhos, negros como a noite. Ah, desculpe Vinicius de Moraes, mais o homem também precisa ter qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade. Eu, por exemplo, sinto a falta dela.

Cambaleando vou ao banheiro. A sensação do álcool na corrente sanguínea é fugaz e não apaga essa flâmula de sentimento. “Um cigarro picado, por favor”. Esse deveria ser meu último pedido, mas não é. “Mais uma, João”, grito.

As horas passam, e o dono da quitanda diz que precisa fechar. A porta de aço já está baixa, a sinuca em silêncio e as cadeiras de pernas erguidas para o céu. Aliás, hoje é dia de lua cheia. Queria te ver, te encontrar e, talvez, pela última vez dizer: eu te amo!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Seu beijo

"Isso" (2001), Titãs.

Por FELIPE PEDROSA
Evito falar de mim, dos meus desejos, das minhas saudades. Tenho medo de ser clichê, piegas e, quem sabe, brega. Mas, não sei porque, o teu último beijo ainda me consome. Fiz poemas, sonetos, textos caprichosos pensando em você e, tenho certeza, nenhum foi percorrido por seus olhos, ora negros, ora castanhos. E, agora, eu me pergunto: e daí? Você, provavelmente, pouco se importa com esse bolorento passado e também com esse presente nostálgico.

O fato é: o seu beijo ainda me faz salivar. Uma, duas, três, dez, quatorze... perdi a conta de quantas bocas toquei depois da sua. Nenhuma delas, entretanto, dançou no meu compasso. O teu gosto é indecifrável, sensível e arrebatador. Os homens, que foram poucos depois de mim – tenho certeza –, sofreram ao deixar você ir. Assim como doeu quando você pegou a estrada, deixando para traz um espólio de vagas lembranças.

Na última vez, nós comemos, bebemos e você pediu para eu não tentar. A tua respiração, porém, já estava no meu ritmo, a sua pele estava em contato com a minha e os seus lábios, que lábios, encostaram-se aos meus.  Droga, não consigo fugir do óbvio. Da mesma maneira que não soube evitá-lo quando você ainda era minha. Flores, bombons e declarações aos montes ou a falta disso tudo?!

Você me chamou para ir. Eu, ainda estagiário, fiz questão de pagar a conta. Não pensei em levá-la para um motel, lugar ermo ou rua deserta. Embora estivesse morrendo de vontade de te ver nua, sentir sua boca deslizando por meu corpo e, mais uma vez, selar o que ainda sinto por você.

Acelerei pela BR 381 rumo a sua nova e já antiga casa. Esse foi o seu pedido. Parei no meio do caminho. Precisava de mais um beijo. Esse foi rápido e sem emoção. Ele, logo, foi interrompido por um: “Tenho que ir embora. Não conte para ninguém o que aconteceu, ok?”.

Adeus.  

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Santa semana


Família. Retrato para sempre na memória

Por Felipe Pedrosa
A estrada até Arcos, região Oeste de Minas Gerais, nunca me encantou. Enquanto o carro deslizava pela BR 262, preferi misturar a realidade estática com as aventuras de alguns cochilos. Aproveitei, assim, melhor a situação de passageiro.

Embora fosse início do feriado da Semana Santa, a estrada estava tranquila e em menos de duas horas minha irmã indicava onde é a casa nova dos meus avós maternos. “É nesse muro branco aí em frente”, disse a caçula da minha casa. Antes de tocar a campainha, imaginei que meu Vô Breu atenderia o portão vestido com seu guarda pó azul. Acertei! Afinal, ele deve ter uns 10 modelos iguais, todos no mesmo tom claro.

Com um sorriso no rosto, os dois vieram atender o portão. Minha avó, que estava ajeitando o almoço e o suco de caju para receber seus hóspedes, disse: “Tirei a cebola do feijão, meu filho”, contou, só para me agradar. Nos próximos dias, pratos típicos de Minas, como costelinha, angu e ovos caipiras, deram o gostinho de cidade do interior no nosso almoço.

A noite foi caindo e as novelas globais foram as nossas únicas companhias. “Vamos jogar Dama”, meu avô me chamou, sabendo que ia ganhar mais uma vez. As peças vão sumindo do tabuleiro e eu já sinto a calmaria que fez esses dois mineiros fugirem da Babilônia da região metropolitana de Belo Horizonte e fincarem o pé em Arcos, onde residem há dois anos.

Observando
Sentados em frente a nova casa, olhando para a praça recém construída, o Sr. Breu estende a mão e cumprimenta todos aqueles que passam. Aproveito o momento e pergunto para Dª Lourdes quantas plantas ela tem. “Deve ter umas 50, meu filho”, conta, citando o nome de algumas e lembrando que meu avô tem que terminar de consertar o galinheiro.

Não muito distante do Centro da cidade, vou e volto a pé. Observo o trem que passa com minério de ferro, as casas tão lindas e as pessoas que não esquecem de dar "dia", "tarde".  Nesse vai e vem, fiquei curioso em conhecer o cinema local, descobri que é realizada apenas uma sessão por dia e que a praça central é o reduto dos adolescentes, que praticam uma espécie de footing do século XXI.

“Bença vô, bença vó”, peço aos dois velhinhos ao mesmo tempo em que entrego um abraço de despedida.   Assim que vamos tomando distância, sinto um aperto no peito e chego a pensar: “até quando vou poder ver nos olhos deles a felicidade da vida nova e aproveitar a santa semana que eles entregam aos hóspedes tão queridos e aguardados?”.

Arcos. Reduto da tranquilidade


*Texto escrito em abril de 2011

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

"A gente vai passar"

Felipe Pedrosa
Os dias seguiam o fluxo normal do tempo. Para alguns, as horas passavam rápidas demais. Para outros, elas eram muito lentas. Assim, cada um aproveitava os minutos como bem entendia. Planejando ou não os afazeres da data em vigor pelo calendário cristão, o sol se punha igualmente para todos. Eu, porém, parti para a casa de uma amiga – de onde não vi o sol se despedir.

A sua mãe me recepcionou com um sorriso e me convidou para entrar. O seu pai, que é mestre em passar uma garrafa de café, me convidou para algumas xícaras do líquido preto e saboroso. Até que ela veio ao meu encontro. Um abraço apertado selou aquela visita.

Recordações deram o tom do nosso bate-papo. Ali mesmo, na cozinha. A garrafa de café foi esvaziando e o assunto era inesgotável. Enquanto falávamos de colégio, o seu pai entrelaçava comentários sobre a casa, sobre os caminhões e sobre o percurso da vida daquela família – humilde, mas acalentadora.

Em determinado momento, ela me disse: “Lipe, o meu convite de formatura para você”. Abri com todo cuidado, afinal, ali dentro tinha o símbolo de uma conquista. A primeira frase do seu texto de agradecimento bateu forte em meu peito: “Um sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”.

Na verdade, a frase é um verso de uma das músicas do baiano Raul Seixas. Entretanto, na sequência do texto, ela agradecia a minha presença durante os quatro anos da sua graduação em Ciências Contábeis.

Fiquei emocionado. Pois, nunca havia imaginado a minha participação nesta conquista. Até por que, não sei nada de contabilidade. Mas as palavras, os gestos, o carinho estiveram aninhados ao lado esquerdo do peito dessa menina.

Naquela tarde, conforme havia dito, não vi o sol se pôr. Mas observei o brilho nos olhos negros daquela menina, admirei a sede com que falava dos projetos futuros e compartilhei as emoções que, há longos dias, estão em ebulição no seu peito. Ela tem uma sede de viver que é arrebatadora!

Nay, assim como você assinou o fim do seu convite, eu lhe digo: “Deixar chegar o sonho, prepara uma avenida, que a gente vai passar”.